Dois pontos, reticências, etc
Mario Rezende e seus amigos escritores, poetas poetisas e artistas construindo com argumentos...
sexta-feira, 22 de maio de 2026
quinta-feira, 21 de maio de 2026
Geometria
Meu pai, operário
Meu pai, carpinteiro
Operário, trabalhador
Tratava a madeira
Como se fosse seu amor
Trabalhava no último andar
Do edifício mais alto
Podia ver o mar
Navios atracados e carros no asfalto
Navios que trouxeram seus pais
Há muito tempo atrás
No porão, com ratos e baratas
Frio, fome e antraz
E, agora, seu filho está lá no alto
Trabalhando a madeira
E vendo os navios no Porto
Está tranquilo, fumando um cigarro
E respirando a poeira
Leva os filhos para a oficina
Tudo cheira a serragem
Da madeira serrada
Eu apreciando a paisagem
Sentada na mureta, bem no alto
Gosto do cheiro de serragem
Vejo navios no Porto
E carros de passagem
A palavra
A palavra concreta
E certa, se falada
Se perde ao vento
Fica calada
Pode ser repetida.
Mas nunca será a primeira
Será esquecida
De qualquer maneira
Se a palavra é escrita
Não se perde, fica
Gravada no livro
Não se perde, está dita.
A palavra é inconstante
ora falada, oescritara
ora verdadeira, ora falsa
Uma vai e a outra fica
Acima das nuvens
quarta-feira, 20 de maio de 2026
Pranto
O Amor que tenho
E não tenho
É assim, assim
Pranteado, desocupado
Desqualificado
Sob o olhar do outro
O outro é você e outros
Meu amor dessignificado
perdemos
Como costuma acontecer
Andávamos por caminhos desconhecidos
sempre subindo, até
O que é, então, o meu amor?
Algo que sinto, constante
Fora da linguagem do outro
É significado, mas não é
Significante
O meu amor, segundo outros
É platônico, é
Não é platônico, nem fantasia
É agonia
O banco da praça
terça-feira, 19 de maio de 2026
O sonho não sonhado
Sonhei
E me esqueci
De modo que vou inventar
Um sonho que não sonhei
Sonhei, o sonho não sonhado,
Que estava com você a caminhar
Na estrada da Floresta da Tijuca
Que é lugar comum de sonhar
Na estrada nos perdemos
Como costuma acontecer
Andávamos por caminhos desconhecidos
sempre subindo, até o anoitecer
Encontrávamos, finalmente
O ônibus pra descer
E fomos parar no edifício
Da Faculdade de Medicina
Outro lugar comum de sonhar e me perder
Havia alguns elevadores
E nós subíamos
Até o último andar
Porque subir é outro modo
Comum de sonhar
Sonhos, em geral, não são felizes
Mas, como estou inventando
Vou transformar este
E te amar no último andar.
Pranto
O Amor que tenho
E não tenho
É assim, assim
Pranteado, desocupado
Desqualificado
Sob o olhar do outro
O outro é você e outros
Meu amor dessignificado
perdemos
Como costuma acontecer
Andávamos por caminhos desconhecidos
sempre subindo, até
O que é, então, o meu amor?
Algo que sinto, constante
Fora da linguagem do outro
É significado, mas não é
Significante
O meu amor, segundo outros
É platônico, é
Não é platônico, nem fantasia
É agonia
domingo, 17 de maio de 2026
Minhas lágrimas
Quando eu choro
As lágrimas caem
Aos meus pés, na janela, na roseira
Formam poças que saem
Entram pelos quartos
Beijam minha mãe, que está morta
Vão pra sala e saem pela porta
Seguem caminhos de terra
Sobem nas árvores, formam o orvalho
E continuam, senhoras e senhores
Sobem até as nuvens
Formam a chuva
Molham os campos, as casas
A mulher que sai usa um guarda-chuva
E as lágrimas-chuva
Molham a roseira, molham a janela
Molham os quartos e a sala
E voltam aos meus olhos
Que ainda choram por ela
Lia Rebello
Pedra Branca
Um Pedaço de rocha
Desprendido
É branca porque é branca
Caiu ali, à margem do caminho
Na sombra
De uma seringueira
Centenária e sombreira
Ao lado da Pedra branca
Muita gente descansa
Cães vadios, andarilhos
Das Dores, serenamente, descansa
Morreu pelas mãos do marido
Como sói acontecer
Agora repousa em paz
Ao lado da Pedra branca, parou de sofrer.
sábado, 16 de maio de 2026
Dançando no ar e Severino
A pluma voa docemente
Na imensidão do ar
Cai lentamente
Até que um sopro de vento
Faz a pluma subir e voejar
Sobe, desce, faz piruetas
Como se fosse bailarina
Dançando no ar
Sua cor é azul
E se confunde com o céu
Graciosamente, balança
Voando ao léu
Numa calmaria, sem vento,
Começa a cair
Cai lentamente e dança
Até pousar no pensamento
Lia Rebello
Severino retirante
Enlouqueceu durante a viagem
Acredita que é São Jorge
Sem teto, vive na lua e nas ruas, pede passagem
Não pode ver um fogão
Sempre acha que é um dragão
Sua lança é um cabo de vassoura
Que ele lança contra o dragão-fogão
Luta contra tudo que tem fogo
Fogão, fogueira, lareira
Orgulhoso, diz a todos que matou mais de cem
Dragões só na sexta-feira
Sou São Jorge sem cavalo,
meu jegue foi comido pela fome
Sou São Jorge protetor
Daqueles que nem sequer têm nome
Lia Rebello
Marias
Marias.
Maria, a virgem
Maria Madalena
Por quem Jesus se encanta
Marias virgens, outras falenas
Marias de todo jeito
Pretas, brancas, mulatas,
ruivas e morenas
De todo nome
Do Perpétuo, Auxiliadora, do Socorro,
Da Conceição e Helenas
E de todo feitio
Bonita, feia, charmosa
dengosa, humilde, aristocrata
Maria vira-lata