quinta-feira, 21 de maio de 2026

Geometria

[19/04, 22:48] Maria Rebello De Rezende: A menina ainda pequena
Abordou-me no sinal fechado
Pediu-me para comprar balas
Por um trocado

Eu disse que não podia
Ela saiu, saltitante,
Parecia radiante
Como se eu lhe tivesse dado
Um anel de brilhante

A menina que nada tem
Brinca, dança 
Mesmo depois de eu dizer não 
Dou partida no carro, surpresa,
Pela resposta espontânea 
da criança

Eu, viciada em dizer não, 
aos pedintes no sinal
Já vira raiva, tristeza, aceitação
Mas, jamais aquela reação 

A mãe, gorda, sentada na calçada Recolhe as migalhas
Que a menina traz
Uma só recebe a outra batalha
[17/05, 08:31] Maria Rebello De Rezende: https://mariorezende.blogspot.com/2026/05/pedra-branca.html
[17/05, 09:00] Mario irmão: Agora foi
[21/05, 21:00] Maria Rebello De Rezende: Um retângulo 
É um paralelogramo
Pode ser um prisma retangular
Ou uma caixa de sapatos italianos

Um quadrado é um retângulo obsessivo
Que quer tudo igual
Ajeita os lados, compulsivo

Um círculo 
Pode ser uma esfera 
em outra dimensão
Uma bola que o menino
Chuta pra estratosfera

O triângulo
Tem de toda sorte
O isóscele é como o quadrado, todo certinnho
Sua aparência é seu suporte

A Terra maltratada

Meu pai, operário

 Meu pai, carpinteiro

Operário, trabalhador

Tratava a madeira

Como se fosse seu amor


Trabalhava no último andar 

Do edifício mais alto

Podia ver o mar

Navios atracados  e carros no asfalto 


Navios que trouxeram seus pais

Há muito tempo atrás

No porão, com ratos e baratas

Frio, fome e antraz


E, agora, seu filho está lá no alto

Trabalhando a madeira

E vendo os navios no Porto

Está tranquilo, fumando um cigarro 

E respirando a poeira


Leva os filhos para a oficina

Tudo cheira a serragem

Da madeira serrada

Eu apreciando a paisagem


Sentada na mureta, bem no alto

Gosto do cheiro de serragem

Vejo navios no Porto

E carros de passagem

A palavra

 A palavra concreta

E certa, se falada

Se perde ao vento

Fica calada


Pode ser repetida. 

Mas nunca será a primeira 

Será esquecida

De qualquer maneira 


Se a palavra é escrita

Não se perde, fica

Gravada no livro

Não se perde, está dita.


A palavra é inconstante 

ora falada, oescritara 

ora verdadeira, ora falsa

Uma vai e a outra fica

O Universo

 

Acima das nuvens

Acima das nuvens
As estrelas, as luas
Os sóis, os planetas,
Os meteoros, os cometasAs nuvens 
Caminham pelo céu aberto
Desenham o céu
Brancas, negras, longe, perto

Amarelas, violetas
No por do sol
Negras, anunciam chuva
Arco íris, quando sai o sol

Vapores d'água 
As nuvens
Olho para o céu
E tento adivinhar o que elas dizem

A imaginação cria
Os desenhos que as nuvens 
Caprichosamente, esboçam
As nuvens e sua magia


quarta-feira, 20 de maio de 2026

Pranto

O Amor que tenho 

E não tenho

É assim, assim

Pranteado, desocupado


Desqualificado 

Sob o olhar do outro

O outro é você e outros

Meu amor dessignificado

perdemos

Como costuma acontecer 

Andávamos por caminhos desconhecidos

sempre subindo, até


O que é, então, o meu amor?

Algo que sinto, constante 

Fora da linguagem do outro

É significado, mas não é

Significante


O meu amor, segundo outros

É platônico, é   

Não é platônico, nem fantasia 

É agonia

O banco da praça

Eu sentada no banco da praça 
Que é lugar de não fazer nada
Observo as árvores centenárias
O voo e o canto da passarada

As crianças brincando 
No parquinho ao lado
E as mães fazendo piquenique
No gramado. 

Vejo gente correndo
Mulheres feias e bonitas
Homens musculosos
No caminho de terra batida

Adolescentes jogando bola 
no campinho cercado
Senhores jogando baralho
Casais passeando abraçados 

Vejo tudo isso, devaneando
No banco da praça
Uma garota de lábios vermelhos
Senta-se ao meu lado
Com um sorriso cheio de graça.

Conversamos sobre a vida
No banco da praça
Ela disse que achava graça
Da vida vagabunda 
Do banco da praça

Às vezes devaneava
Num banco de praça
Vendo a criançada
Vendo a passarada

Vendo as árvores centenárias 
Vendo os meninos jogar bola
Vendo as mães no gramado
Vendo gente abraçada 
a qualquer hora

Vendo velhinhos jogarem baralho
Em qualquer praça
Falava com tanta graça
Que não resisti, 
convidei-a pra minha casa

Comemos queijos 
e bebemos vinhos
Ela me contou da sua vida
Que era dançarina na Lapa
Um abrigo era seu ninho

Muitas vezes dormia
No banco da praça
Vestida de dançarina
Que era a roupa que tinha

Quando acordava fazia arruaça
Dançando pro povo da praça
Fazia isso de graça
Pois gostava de fazer graça 

Depois ia tomar café
No bar da esquina
Cujo dono ela conhecia
E que era gente fina

Fui ficando muito apaixonada 
Por esta moça engraçada
Que dormia e gostava 
de olhar a vida que passava
Sentada no banco da praça.

Veio morar na minha casa
Mas ainda trabalhava na Lapa
E, às vezes, dançava na praça
Eu era fogo brando e ela, uma brasa.

Agora somos casadas
Adotamos uma menina 
E todo dia à tardinha
Vamos ao banco da praça 

A menina brinca no parquinho
Nós, devaneando, 
Observamos o movimento
E à noite, no palco, 
ela mostra seu talento

terça-feira, 19 de maio de 2026

O sonho não sonhado

 Sonhei

E me esqueci

De modo que vou inventar

Um sonho que não sonhei


Sonhei, o sonho não sonhado, 

Que estava com você a caminhar 

Na estrada da Floresta da Tijuca

Que é lugar comum de sonhar 


Na estrada nos perdemos

Como costuma acontecer 

Andávamos por caminhos desconhecidos

sempre subindo, até o anoitecer


Encontrávamos, finalmente 

O ônibus pra descer

E fomos parar no edifício

Da Faculdade de Medicina 

Outro lugar comum de sonhar e me perder


Havia alguns elevadores

E nós subíamos 

Até o último andar

Porque subir é outro modo

Comum de sonhar


Sonhos, em geral, não são felizes

Mas, como estou inventando

Vou transformar este

E te amar no último andar.

Pranto

O Amor que tenho 

E não tenho

É assim, assim

Pranteado, desocupado


Desqualificado 

Sob o olhar do outro

O outro é você e outros

Meu amor dessignificado

perdemos

Como costuma acontecer 

Andávamos por caminhos desconhecidos

sempre subindo, até


O que é, então, o meu amor?

Algo que sinto, constante 

Fora da linguagem do outro

É significado, mas não é

Significante


O meu amor, segundo outros

É platônico, é   

Não é platônico, nem fantasia 

É agonia

domingo, 17 de maio de 2026

Minhas lágrimas

 Quando eu choro

As lágrimas caem

Aos meus pés, na janela, na roseira

Formam poças que saem


Entram pelos quartos

Beijam minha mãe, que está morta

Vão pra sala e saem pela porta


Seguem caminhos de terra

Sobem nas árvores, formam o orvalho

E continuam, senhoras e senhores


Sobem até as nuvens

Formam a chuva

Molham os campos, as casas

A mulher que sai usa um guarda-chuva


E as lágrimas-chuva

Molham a roseira, molham a janela

Molham os quartos e a sala

E voltam aos meus olhos

Que ainda choram por ela


                   Lia Rebello 

Pedra Branca

 

Um Pedaço de rocha

Desprendido

É branca porque é branca 


Caiu ali, à margem do caminho

Na sombra

De uma seringueira

Centenária e sombreira


Ao lado da Pedra branca 

Muita gente descansa 

Cães vadios, andarilhos

Das Dores, serenamente, descansa


Morreu pelas mãos do marido

Como sói acontecer

Agora repousa em paz

Ao lado da Pedra branca, parou de sofrer.

sábado, 16 de maio de 2026

Dançando no ar e Severino

 A pluma voa docemente

Na imensidão do ar

Cai lentamente 

Até que um sopro de vento


Faz a pluma subir e voejar

Sobe, desce, faz piruetas

Como se fosse bailarina

Dançando no ar


Sua cor é azul 

E se confunde com o céu

Graciosamente, balança 

Voando ao léu


Numa calmaria, sem vento, 

Começa a cair

Cai lentamente e dança

Até pousar no pensamento


                      Lia Rebello

 Severino retirante

Enlouqueceu durante a viagem

Acredita que é São Jorge 

Sem teto, vive na lua e nas ruas, pede passagem


Não pode ver um fogão 

Sempre acha que é um dragão

Sua lança é um cabo de vassoura

Que ele lança contra o dragão-fogão



Luta contra tudo que tem fogo

Fogão, fogueira, lareira

Orgulhoso, diz a todos que matou mais de cem

Dragões só na sexta-feira


Sou São Jorge sem cavalo, 

meu jegue foi comido pela fome

Sou São Jorge protetor

Daqueles que nem sequer têm nome


                       Lia Rebello 

Marias

 Marias. 


Maria, a virgem

Maria Madalena 

Por quem Jesus se encanta 

Marias virgens, outras falenas 


Marias de todo jeito 

Pretas, brancas, mulatas, 

ruivas e morenas


De todo nome 

Do Perpétuo, Auxiliadora, do Socorro,

Da Conceição e Helenas 


E de todo feitio

Bonita, feia, charmosa

dengosa, humilde, aristocrata

Maria vira-lata