Dois pontos, reticências, etc
Mario Rezende e seus amigos escritores, poetas poetisas e artistas construindo com argumentos...
quinta-feira, 4 de junho de 2026
domingo, 31 de maio de 2026
Crônica da Avenida
Estou parada na rua,
Fumando um cigarro e
Observando as centenas de pessoas que passam por mim
Sérias, cabisbaixas, sorrindo ou conversando
Vão andando, umas pensando em pegar um gato
Outras em como está caro
O café
Outras ainda em como sua filha se perdeu na vida
Um pivete pensa em roubar minha bolsa
Algumas, cansadas, saindo do trabalho e pensando no jantar e na cama
Outras olhando as vitrines e pensando se o dinheiro é suficiente pra comprar aquele edredom
Adolescentes conversando e rindo e pensando na próxima selfie que vão publicar no face
Gente em cadeiras de rodas, desanimadas e pensando na morte
Moças indo à praia, com biquinis que quase não existem, olhando para os lados para ver se estão sendo olhadas e pensando: "nós somos poderosas"
Gente andando apressada para pegar o próximo trem do metrô
Vejo um homem maltrapilho e dentes estragados, dormindo ao lado da sarjeta
Uma mulher me pede para comprar balas para ajudá-la a comprar leite para sua filha que traz no colo
Um homem magro e sujo me pede o resto do cigarro que estou fumando.
Finalmente, entro no edifício comercial e acaba esta crônica da Avenida Nossa Senhora de Copacabana.
O mar e o pescador
O mar,
o sal
Meu corpo teso, salgado
Quando saio do mar
Azul, azul
Explode em brancas ondas
Na praia de areias brancas
Molham seu corpo de curvas ondas
Afastado da costa
Um pescador
Num barco azul
Chamado Das Dores
Joga a rede
Para pescar
Peixes de várias cores
E de vários sabores
Peixes vermelhos como a dor
Peixes azuis como o mar
Peixes cinzentos como
A vida do pescador
Nas rochas batem as ondas com furor
E com ajuda do vento
Formam peixes, conchas,
Sereias e pescador
sábado, 30 de maio de 2026
Tempestade
Ventania, tempestade
Dentro da minha cabeça
Pensamentos para um lado
Censura para outro, tudo disparado
É como um átomo, cujas partículas
Se movem rapidamente
Chocam-se, unem-se, repelem-se,
Minha cabeça quente
Desejos para o norte
Para o sul perto da morte
Desejos pra todo lado
Pra todo lado o corte
Desejos com pressa
Erram num ritmo frenético
Nos impulsos da ventania
Está ficando tarde, cinético
E tudo corre
Tenho medo
De não alcançar
Antes de tudo acabar
Minha cabeça roda
Tudo se confunde
Desejos, censura,
pensamentos, morte, amargura
Teimo em achar que dá
A consciência diz que não
Meu peito se contrai
É angústia que também diz não.
A velhice
Vida longa
Tudo apodrece
De dentro para fora
E de fora para dentro
Tudo escurece
Vim do subúrbio
Mais suburbano
Bem perto da podridão
Pulgas, valas e valão
Agora vejo a praia da janela
Mas não posso frequentá-la
Porque já se foi o equilíbrio
E tenho que usar bengala
O subúrbio tinha graça
Brincadeiras no quintal, na rua e na praça
Éramos jovens, tudo novo,
Tinha vó, vô, mãe e pai, de graça
Agora, vivo essa vida precária
Sonhando acordada
Com Ourinhos e Vietnã
E com as mulheres desejadas
Já se foi a libido
Sexo, nem sozinha e escondida
Onde está a pulsão de vida?
No meu sonho, decidida e atrevida
As asas do mundo
As asas dos anjos
levam a criança
Que asas nos levarão?
As asas do avião que me levam ao Vietnã
As asas do 14-bis
Que fizeram a fama de Santos Dumont
As asas da águia
Que escondem um leão
As asas que eu tinha
Quando sonhei
As asas do destino
Para onde nos levarão?
As asas do beija-flor
Que batem mais rápido
Do que alcança nossa visão
As asas da nossa imaginação
quarta-feira, 27 de maio de 2026
A mulher do carro alegórico
A mulher no carro alegórico
Da escola de samba
Dança tão freneticamente
Cai, desconjuntada, a bamba
O médico veio pra consertar
Estava com uma perna no nariz
A cabeça no pé
Os braços nos quadris
O médico botou
A bamba ajeitada
Parecia um Frankstein
Toda costurada
Foi pro hospital
Onde se recupera
Mas assustou os pacientes
Que gritavam: olha a fera!
Lia Rebello
domingo, 24 de maio de 2026
quinta-feira, 21 de maio de 2026
Geometria
Meu pai, operário
Meu pai, carpinteiro
Operário, trabalhador
Tratava a madeira
Como se fosse seu amor
Trabalhava no último andar
Do edifício mais alto
Podia ver o mar
Navios atracados e carros no asfalto
Navios que trouxeram seus pais
Há muito tempo atrás
No porão, com ratos e baratas
Frio, fome e antraz
E, agora, seu filho está lá no alto
Trabalhando a madeira
E vendo os navios no Porto
Está tranquilo, fumando um cigarro
E respirando a poeira
Leva os filhos para a oficina
Tudo cheira a serragem
Da madeira serrada
Eu apreciando a paisagem
Sentada na mureta, bem no alto
Gosto do cheiro de serragem
Vejo navios no Porto
E carros de passagem
Lia Rebello
A palavra
A palavra concreta
E certa, se falada
Se perde ao vento
Fica calada
Pode ser repetida.
Mas nunca será a primeira
Será esquecida
De qualquer maneira
Se a palavra é escrita
Não se perde, fica
Gravada no livro
Não se perde, está dita.
A palavra é inconstante
ora falada, ora escrita
ora verdadeira, ora falsa
Uma vai e a outra fica
quarta-feira, 20 de maio de 2026
O banco da praça
terça-feira, 19 de maio de 2026
O sonho não sonhado
Sonhei
E me esqueci
De modo que vou inventar
Um sonho que não sonhei
Sonhei, o sonho não sonhado,
Que estava com você a caminhar
Na estrada da Floresta da Tijuca
Que é lugar comum de sonhar
Na estrada nos perdemos
Como costuma acontecer
Andávamos por caminhos desconhecidos
sempre subindo, até o anoitecer
Encontrávamos, finalmente
O ônibus pra descer
E fomos parar no edifício
Da Faculdade de Medicina
Outro lugar comum de sonhar e me perder
Havia alguns elevadores
E nós subíamos
Até o último andar
Porque subir é outro modo
Comum de sonhar
Sonhos, em geral, não são felizes
Mas, como estou inventando
Vou transformar este
E te amar no último andar.
Pranto
O Amor que tenho
E não tenho
É assim, assim
Pranteado, desocupado
Desqualificado
Sob o olhar do outro
O outro é você e outros
Meu amor dessignificado
perdemos
Como costuma acontecer
Andávamos por caminhos desconhecidos
sempre subindo, até
O que é, então, o meu amor?
Algo que sinto, constante
Fora da linguagem do outro
É significado, mas não é
Significante
O meu amor, segundo outros
É platônico, é
Não é platônico, nem fantasia
É agonia
Lia Rebello
domingo, 17 de maio de 2026
Minhas lágrimas
Quando eu choro
As lágrimas caem
Aos meus pés, na janela, na roseira
Formam poças que saem
Entram pelos quartos
Beijam minha mãe, que está morta
Vão pra sala e saem pela porta
Seguem caminhos de terra
Sobem nas árvores, formam o orvalho
E continuam, senhoras e senhores
Sobem até as nuvens
Formam a chuva
Molham os campos, as casas
A mulher que sai usa um guarda-chuva
E as lágrimas-chuva
Molham a roseira, molham a janela
Molham os quartos e a sala
E voltam aos meus olhos
Que ainda choram por ela
Lia Rebello