domingo, 31 de maio de 2026

Crônica da Avenida

 Estou parada na rua, 

Fumando um cigarro e

Observando as centenas de pessoas que passam por mim 

Sérias, cabisbaixas, sorrindo ou conversando

Vão andando, umas pensando em pegar um gato

Outras em como está caro

O café

Outras ainda em como sua filha se perdeu na vida

Um pivete pensa em roubar minha bolsa

Algumas, cansadas, saindo do trabalho e pensando no jantar e na cama

Outras olhando as vitrines e pensando se o dinheiro é suficiente pra comprar aquele edredom

Adolescentes conversando e rindo e pensando na próxima selfie que vão publicar no face

Gente em cadeiras de rodas, desanimadas e pensando na morte

Moças indo à praia, com biquinis que quase não existem, olhando para os lados para  ver se estão sendo olhadas e pensando: "nós somos poderosas"

Gente andando apressada para pegar o próximo trem do metrô

Vejo um homem maltrapilho e dentes estragados, dormindo ao lado da sarjeta

Uma mulher me pede para comprar balas para ajudá-la a comprar leite para sua filha que traz no colo

Um homem magro e sujo me pede o resto do cigarro que estou fumando.

Finalmente, entro no edifício comercial e acaba esta crônica da Avenida Nossa Senhora de Copacabana.

O mar e o pescador

 O mar, 

o sal

Meu corpo teso, salgado

Quando saio do mar


Azul, azul

Explode em brancas ondas

Na praia de areias brancas

Molham seu corpo de curvas ondas 


Afastado da costa

Um pescador 

Num barco azul

Chamado Das Dores


Joga a rede

Para pescar

Peixes de várias cores

E de vários sabores


Peixes vermelhos como a dor

Peixes azuis como o mar

Peixes cinzentos como

A vida do pescador


Nas rochas batem as ondas com furor

E com ajuda do vento

Formam peixes, conchas,

Sereias e pescador

sábado, 30 de maio de 2026

Tempestade

Ventania, tempestade

Dentro da minha cabeça

Pensamentos para um lado

Censura para outro, tudo disparado


É como um átomo, cujas partículas

Se movem rapidamente 

Chocam-se, unem-se, repelem-se, 

Minha cabeça quente


Desejos para o norte

Para o sul perto da morte

Desejos pra todo lado

Pra todo lado o corte


Desejos com pressa

Erram num ritmo frenético 

Nos impulsos da ventania 

Está ficando tarde, cinético


E tudo corre

Tenho medo

De não alcançar 

Antes de tudo acabar


Minha cabeça roda

Tudo se confunde

Desejos, censura,

pensamentos, morte, amargura


Teimo em achar que dá

A consciência diz que não 

Meu peito se contrai

É angústia que também diz não.




A velhice

Vida longa

Tudo apodrece

De dentro para fora

E de fora para dentro

Tudo escurece


Vim do subúrbio

Mais suburbano

Bem perto da podridão

Pulgas, valas e valão


Agora vejo a praia da janela 

Mas não posso frequentá-la

Porque já se foi o equilíbrio 

E tenho que usar bengala



O subúrbio tinha graça 

Brincadeiras no quintal, na rua e na praça 

Éramos jovens, tudo novo,

Tinha vó, vô, mãe e  pai, de graça 


Agora, vivo essa vida precária

Sonhando acordada

Com Ourinhos e Vietnã

E com as mulheres desejadas



Já se foi a libido

Sexo, nem sozinha e escondida

Onde está a pulsão de vida?

No meu sonho, decidida e atrevida




As asas do mundo

 As asas dos anjos

levam a criança

Que asas nos levarão?

As asas do avião que me levam ao Vietnã


As asas do 14-bis 

Que fizeram a fama de Santos Dumont

As asas da águia

Que escondem um leão


As asas que eu tinha

Quando sonhei

As asas do destino

Para onde nos levarão?


As asas do beija-flor

Que batem mais rápido

Do que alcança nossa visão

As asas da nossa imaginação

quarta-feira, 27 de maio de 2026

A mulher do carro alegórico

 A mulher no carro alegórico

Da escola de samba

Dança tão freneticamente 

Cai, desconjuntada, a bamba


O médico veio pra consertar 

Estava com uma perna no nariz 

A cabeça no pé

Os braços nos quadris


O médico botou

A bamba ajeitada

Parecia um Frankstein

Toda costurada


Foi pro hospital 

Onde se recupera

Mas assustou os pacientes

Que gritavam: olha a fera!


                Lia Rebello

domingo, 24 de maio de 2026

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Geometria

Um retângulo 
É um paralelogramo
Pode ser um prisma retangular
Ou uma caixa de sapatos italianos

Um quadrado é um retângulo obsessivo
Que quer tudo igual
Ajeita os lados, compulsivo

Um círculo 
Pode ser uma esfera 
em outra dimensão
Uma bola que o menino
Chuta pra estratosfera

O triângulo
Tem de toda sorte
O isóscele é como o quadrado, todo certinnho
Sua aparência é seu forte

Meu pai, operário

 Meu pai, carpinteiro

Operário, trabalhador

Tratava a madeira

Como se fosse seu amor


Trabalhava no último andar 

Do edifício mais alto

Podia ver o mar

Navios atracados  e carros no asfalto 


Navios que trouxeram seus pais

Há muito tempo atrás

No porão, com ratos e baratas

Frio, fome e antraz


E, agora, seu filho está lá no alto

Trabalhando a madeira

E vendo os navios no Porto

Está tranquilo, fumando um cigarro 

E respirando a poeira


Leva os filhos para a oficina

Tudo cheira a serragem

Da madeira serrada

Eu apreciando a paisagem


Sentada na mureta, bem no alto

Gosto do cheiro de serragem

Vejo navios no Porto

E carros de passagem


Lia Rebello

A palavra

 A palavra concreta

E certa, se falada

Se perde ao vento

Fica calada


Pode ser repetida. 

Mas nunca será a primeira 

Será esquecida

De qualquer maneira 


Se a palavra é escrita

Não se perde, fica

Gravada no livro

Não se perde, está dita.


A palavra é inconstante 

ora falada, ora escrita

ora verdadeira, ora falsa

Uma vai e a outra fica

quarta-feira, 20 de maio de 2026

O banco da praça

Eu sentada no banco da praça 
Que é lugar de não fazer nada
Observo as árvores centenárias
O voo e o canto da passarada

As crianças brincando 
No parquinho ao lado
E as mães fazendo piquenique
No gramado. 

Vejo gente correndo
Mulheres feias e bonitas
Homens musculosos
No caminho de terra batida

Adolescentes jogando bola 
no campinho cercado
Senhores jogando baralho
Casais passeando abraçados 

Vejo tudo isso, devaneando
No banco da praça
Uma garota de lábios vermelhos
Senta-se ao meu lado
Com um sorriso cheio de graça.

Conversamos sobre a vida
No banco da praça
Ela disse que achava graça
Da vida vagabunda 
Do banco da praça

Às vezes devaneava
Num banco de praça
Vendo a criançada
Vendo a passarada

Vendo as árvores centenárias 
Vendo os meninos jogar bola
Vendo as mães no gramado
Vendo gente abraçada 
a qualquer hora

Vendo velhinhos jogarem baralho
Em qualquer praça
Falava com tanta graça
Que não resisti, 
convidei-a pra minha casa

Comemos queijos 
e bebemos vinhos
Ela me contou da sua vida
Que era dançarina na Lapa
Um abrigo era seu ninho

Muitas vezes dormia
No banco da praça
Vestida de dançarina
Que era a roupa que tinha

Quando acordava fazia arruaça
Dançando pro povo da praça
Fazia isso de graça
Pois gostava de fazer graça 

Depois ia tomar café
No bar da esquina
Cujo dono ela conhecia
E que era gente fina

Fui ficando muito apaixonada 
Por esta moça engraçada
Que dormia e gostava 
de olhar a vida que passava
Sentada no banco da praça.

                  Lia Rebello 

terça-feira, 19 de maio de 2026

O sonho não sonhado

 Sonhei

E me esqueci

De modo que vou inventar

Um sonho que não sonhei


Sonhei, o sonho não sonhado, 

Que estava com você a caminhar 

Na estrada da Floresta da Tijuca

Que é lugar comum de sonhar 


Na estrada nos perdemos

Como costuma acontecer 

Andávamos por caminhos desconhecidos

sempre subindo, até o anoitecer


Encontrávamos, finalmente 

O ônibus pra descer

E fomos parar no edifício

Da Faculdade de Medicina 

Outro lugar comum de sonhar e me perder


Havia alguns elevadores

E nós subíamos 

Até o último andar

Porque subir é outro modo

Comum de sonhar


Sonhos, em geral, não são felizes

Mas, como estou inventando

Vou transformar este

E te amar no último andar.

Pranto

O Amor que tenho 

E não tenho

É assim, assim

Pranteado, desocupado


Desqualificado 

Sob o olhar do outro

O outro é você e outros

Meu amor dessignificado

perdemos

Como costuma acontecer 

Andávamos por caminhos desconhecidos

sempre subindo, até


O que é, então, o meu amor?

Algo que sinto, constante 

Fora da linguagem do outro

É significado, mas não é

Significante


O meu amor, segundo outros

É platônico, é   

Não é platônico, nem fantasia 

É agonia


               Lia Rebello 

domingo, 17 de maio de 2026

Minhas lágrimas

 Quando eu choro

As lágrimas caem

Aos meus pés, na janela, na roseira

Formam poças que saem


Entram pelos quartos

Beijam minha mãe, que está morta

Vão pra sala e saem pela porta


Seguem caminhos de terra

Sobem nas árvores, formam o orvalho

E continuam, senhoras e senhores


Sobem até as nuvens

Formam a chuva

Molham os campos, as casas

A mulher que sai usa um guarda-chuva


E as lágrimas-chuva

Molham a roseira, molham a janela

Molham os quartos e a sala

E voltam aos meus olhos

Que ainda choram por ela


                   Lia Rebello 

Pedra Branca

 

Um Pedaço de rocha

Desprendido

É branca porque é branca 


Caiu ali, à margem do caminho

Na sombra

De uma seringueira

Centenária e sombreira


Ao lado da Pedra branca 

Muita gente descansa 

Cães vadios, andarilhos

Das Dores, serenamente, descansa


Morreu pelas mãos do marido

Como sói acontecer

Agora repousa em paz

Ao lado da Pedra branca, parou de sofrer.


                 Lia Rebello