domingo, 19 de abril de 2015

A Tempestade,



Hoje a tempestade avança por dentro de mim. Rodopia por entre as minhas dúvidas, me assombra. Me sinto um caos! Um pedido soa longe: “socorro”! E gritos me atordoam... O pequeno barco já partiu do cais, agora minha viagem não tem volta. Minha jornada na solidão começa assim, apenas um cais vazio, sem acenos ou despedidas. Apenas vou, com meus farrapos na pele e minhas verdades não esclarecidas. Meu barco passará pelas insônias e pelos rios vermelhos, e acordarei na neblina dos meus próprios sonhos. 

Estúpida e mansa, como na infância... Tola e covarde, como na juventude. Apenas sigo, navegando no mar de ideias, tentando não naufragar nas agonias presas na garganta, apenas sussurrar tem sido meu escape, breves e pavorosos. Louca! Uma voz suave ao meu ouvido, toda noite. Louca? Acho que já não é tanta loucura assim que me mantém. Deixei meu monstro interior preso no baú das minhas delícias, não sou dele mais, sou apenas uma moça que navega na imensidão das águas claras, procurando uma parte da infância, procurando outra metade. 

A tempestade é verdadeira agora e faz meu barco balançar de um lado para o outro, não tenho mais controle dele, nem de mim. O vento é forte, a tempestade me alcançou e agora faço parte dela... E ela consegue me atirar no mar gélido e sinistro, e agora faço parte dele, sou agora mais uma de suas ideias. E lentamente meu corpo se vai, feito um bailado em câmera lenta. E meu corpo cintila, vultos claros me envolvem, como se saíssem de dentro mim, saíam os medos e os pesadelos, saíam as sobras, os desamores... Acordei na praia. Um praia colorida, sua areia brilhava feito cristal. Paralisei-me, olhando minhas mãos transparentes... Uma música soava, igual aquelas caixinhas com bailarinas... E eu corria ao encontro da música, as folhas no chão corriam comigo, e eu brincava com elas e sorríamos, éramos crianças... E cada folha era um sorriso, e eu já não sabia se era uma criança correndo ou uma daquelas estranhas folhas. 

O mar já não existia dentro de mim, já não sentia saudade do monstro que tranquei, e já não lembrava da tempestade... Sou agora apenas uma rocha ou flor? Uma folhagem que corre ou abismo sem cor? Fumaça do vulcão ou música secreta? Sou a caixinha ou a criança tentando dar corda? Estou perdida na praia, não estou?! O sol queima na pele... Já é manhã dentro de mim. 

A tempestade me abraçara forte, sou agora uma moça perdida, tentando achar o caminho de volta pra casa.

Sulla Mino,

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