Concordo plenamente com o poeta e jornalista Rogério Salgado
Mario Rezende e seus amigos escritores, poetas poetisas e artistas construindo com argumentos...
sábado, 25 de março de 2023
sábado, 25 de fevereiro de 2023
domingo, 19 de fevereiro de 2023
A Dança Sombria
No carnaval Heitor se sentia vivo. Ele sempre gostou de dançar. Quando menino vestia sua roupa mais colorida e passava horas imitando coreografias da moda ou rodopiando – Seu mundo era música e a sensação dos pés descalços tocando o chão. Infelizmente o tempo o obrigou a guardar seus sonhos dentro de uma caixa enterrada no fundo da alma – Faculdade, trabalho e rotina o fizeram entender que ele não faria parte daqueles poucos bem-aventurados que fazem da paixão sua profissão. Como havia sobrevivido sem carnaval durante os tristes anos da pandemia de COVID-19 era um mistério que agora pouco importava: O carnaval finalmente havia voltado.
Aconteceu durante o Bloco das Ba-Bahianas sem Taboleiro, tradicionalíssimo em São Vicente. Heitor dançava, deixando a música libertá-lo de suas amarras: Vergonha, insegurança e timidez iam sendo pisadas pelos pés ágeis e velozes. No mar de foliões, um olhar chamou a atenção: Aquele rapaz negro retinto de olhos côr de âmbar, vestido com um short de linho e um colar de sementes vermelhas não parava de encará-lo. Um flerte logo correspondido pelo seu corpo.
– Quem é você?
– Sou um gênio. Posso realizar teu desejo mais profundo.
Meio bêbado, Heitor apenas sussurrou: Tudo o que eu quero é dançar para sempre. Até morrer. E beijou o belo desconhecido. Os lábios quentes tinham sabor de tâmaras frescas e mel.
Heitor repentinamente se viu num palco – A folia havia sumido. O samba, o trio elétrico e aquele homem lindo haviam desaparecido. Ele dançava abraçado a uma bailarina enquanto uma música tocava e a cortina abria e fechava, Não parava nunca. Ele não via a plateia, apenas um vidro e dois olhos que espiavam de tempos em tempos. Ele não conseguia parar de dançar nem soltar a bailarina que lhe parecia um manequim: Muda e gelada. Ouvia conversas de pessoas incomodadas com o som contínuo, e tudo ao redor parecia enorme. Ele dançou por dias, semanas e meses, sem jamais descansar. Começou a sentir dores, mas não podia parar de dançar. O cenário ao redor do palco mudava frequentemente: Primeiro parecia estar num enorme quarto de criança, depois numa sala, num velho galpão e por último, sentiu a terra tremer sob seus pés quando o palco inteiro caiu em um lugar ermo, que parecia um beco. O vidro rachou, mas ele não conseguia soltar a bailarina e fugir.
As pessoas que passavam pelo beco ouviam a música e se perguntavam de onde ela vinha, mas não sabiam da triste história de Heitor. Alguns ouviam gritos e gemidos vindos da caixa, mas achavam que eram apenas ilusões sonoras.
Anos se passaram e Heitor se transformou em uma criatura assustadora, sem vida e sem alma, mas ainda dançando dentro da caixa de música. Sua pele estava enrugada e seca, seus olhos estavam vidrados e sem expressão. As pessoas que o viam dançando ficavam paralisadas de medo e corriam dali o mais rápido possível.
Certa noite um homem que vivia em situação de rua assentou-se naquele beco. Entre seus delírios via um monstruoso homem dançando na caixinha de música que jazia em uma pilha de entulhos. Irritado pelo som contínuo, ele arremessou a caixinha com força para o meio da rua. Envelhecida pelo tempo, a madeira se partiu. João então retomou seu tamanho normal, o corpo minúsculo da bailarina em sua mão. Ele olhou os destroços ao seu lado e finalmente entendeu: Estivera preso numa caixinha de música. Dançou até o último de seus dias, como havia pedido. Tarde demais percebeu que desejos podem ser perigosos e gênios nem sempre são amáveis. Rodopiou uma última vez, involuntariamente, seu corpo exigia movimento contínuo. Carros passaram raspando por sua figura esquálida. Um policial tentou pará-lo, mas ele não conseguia deixar de dançar. Nas calçadas quem passava o via com pena ou desprezo: Mais um perdido na vida, delirante, sem eira nem beira. Aqueles olhares machucavam Heitor como facas. Sentia sede, fome e dores. Dançando chegou na avenida principal da cidade. Foi atingido por um caminhão que passava correndo pela contra mão. Morreu ao som distante de uma música que tocava em algum lugar.
quinta-feira, 29 de dezembro de 2022
Papo de Busão: Papel Higiênico.
Não sei se é só comigo ou se todo mundo tem histórias de transporte público pra contar. Talvez o fato de eu não me sentir confortável naquele ambiente apertado e cheio de gente sirva como predisposição para atrair coisas/pessoas estranhas para perto – Afinal, dizem os mais velhos que a gente atrai o que teme e o que não gosta… Enfim, hoje passei no supermercado para comprar papel higiênico, e, como estava sem a sacola ecológica, optei por colocar aquele trambolho de 20 rolos embaixo do braço e ir pro ponto de ônibus. O bendito circular chegou, relativamente vazio mas não o suficiente pra eu ir sentada na janelinha. Sentei no último lugar vazio. Do meu lado, uma mulher beirando seus quarenta e poucos anos. Do nada ela me cutuca: “Moça, podia ter colocado numa sacolinha né? É feio carregar isso por aí”. Você também é feia e nem por isso tô pedindo pra cobrir o rosto com um saco…. Eu, pacientemente, comentei: “Pois é, esqueci a sacola ecológica. E o pacote nem caberia nas do supermercado”. Assunto terminado? Não. A criatura retruca: “Mesmo assim, podia ter colocado uma em cada ponta, só pra cobrir o pacote. É muito feio andar com papel higiênico exposto”. Ela disse desembrulhando uma bala e JOGANDO O PAPEL PELA JANELA. Eu juro que tento ser educada e sociável, mas tem horas que não dá. Olhei pra ela, olhei pra janela e… “ Feio? Não tem nada feio aqui não. E ele não está exposto, ele já vem no plástico e por isso eu não preciso poluir mais o mundo com sacolinhas de supermercado. Agora feio mesmo é você jogar papel de bala pela janela e ainda querer dar lição de moral”. Ela resmungou algo sobre “essa juventude impaciente dos dias de hoje, que não aceita opiniões e blábláblá”, virou o rosto pra janela e me deixou em paz… Fico pensando: Não sei quantos anos ela pensa que eu tenho pra se referir a mim como “juventude”, mas espero mesmo que os jovens de hoje sejam críticos e não aceitem sugestões babacas dadas com base em preconceitos ou convenções sociais sem fundamento. E, se alguém futuramente me falar que é feio carregar qualquer coisa sem sacolinha, vou responder a primeira frase que pensei e não disse hoje por educação: Você também é feia/feio/feie e nem por isso tô reclamando da tua cara exposta.
domingo, 25 de dezembro de 2022
domingo, 18 de dezembro de 2022
domingo, 11 de dezembro de 2022
quarta-feira, 2 de novembro de 2022
sábado, 1 de outubro de 2022
Vetustez
Minha homenagem pela passagem do Dia Internacional do Idoso.
Os anos deixaram marcas em seu rosto,
Mas sua alma continua linda e jovem.
Os anos apoderaram-se dos seus melhores momentos,
Porém saudosas lembranças permanecem presentes.
Os anos têm imposto limitações ao seu corpo,
Contudo, não degeneraram a sua vontade de viver.
(Texto de Josselene Marques)
sábado, 17 de setembro de 2022
domingo, 4 de setembro de 2022
domingo, 21 de agosto de 2022
terça-feira, 26 de julho de 2022
domingo, 15 de maio de 2022
MEU NOVO LIVRO
Ao receber o convite de Mario Rezende
para prefaciar seu quarto volume do livro Causos da boleia, fiquei com uma
imensa alegria e muito carinho, pois o conheci quando havia acabado de lançar o
primeiro "Causos da boleia" e estava começando minha carreira e por
todo esse acolhimento, retribuir essa amizade de doze anos com um prefácio me
deixa muito feliz.
A vida literária é como o “Causos da boleia"
cheia de curvas, nuances e estradas. Histórias vividas em caminhos traçados
pelo destino sem sabermos o fim da estrada. Estou encantada com todos os
contos, pessoas, mulheres, homens que cruzaram esse livro baseado em histórias
reais e fictícias, pois cabeça de escritor é território indomável.
Estou convencida, cada vez mais, de que
apesar de termos "caminhos" diferentes nesse tempo todo de amizade, a
escrita é o nosso caminho, é o nosso lugar de encontro, de conversa, de
admiração. Isso é uma das grandes dádivas que podemos receber dessa vida.
Convido aos leitores para colocar o
cinto de segurança e das emoções antes de entrar na jornada dos causos
encontrados nesse livro. Mario Rezende sempre criativo e intuitivo, sempre
agregador e seletivo, mais uma vez, reuniu em palavras uma obra magnífica. Bata
a porta com força e boa viagem!
Izabelle
Valladares
Escritora
Administrative Director na
empresa Literarte Kids empreendimentos audiovisuais
















