Mario Rezende e seus amigos escritores, poetas poetisas e artistas construindo com argumentos...
sábado, 9 de setembro de 2023
domingo, 3 de setembro de 2023
terça-feira, 25 de julho de 2023
sábado, 24 de junho de 2023
sábado, 17 de junho de 2023
domingo, 4 de junho de 2023
domingo, 28 de maio de 2023
MÃE
MÃE
Ser mãe é encontrar,
no sorriso dos seus filhos,
toda a alegria de viver.
Confirmar, com o entrelaçar das mãos,
a certeza da confiança na orientação
dos caminhos a seguir na vida.
Observar, no brilho dos olhos dos filhos,
a demonstração da riqueza de ser
alguém que os inspirou.
É ter a satisfação por atingir o objetivo
para o qual os gerou e criou com amor.
Mario Rezende
domingo, 30 de abril de 2023
domingo, 23 de abril de 2023
sábado, 22 de abril de 2023
domingo, 16 de abril de 2023
sexta-feira, 7 de abril de 2023
sábado, 25 de março de 2023
sábado, 25 de fevereiro de 2023
domingo, 19 de fevereiro de 2023
A Dança Sombria
No carnaval Heitor se sentia vivo. Ele sempre gostou de dançar. Quando menino vestia sua roupa mais colorida e passava horas imitando coreografias da moda ou rodopiando – Seu mundo era música e a sensação dos pés descalços tocando o chão. Infelizmente o tempo o obrigou a guardar seus sonhos dentro de uma caixa enterrada no fundo da alma – Faculdade, trabalho e rotina o fizeram entender que ele não faria parte daqueles poucos bem-aventurados que fazem da paixão sua profissão. Como havia sobrevivido sem carnaval durante os tristes anos da pandemia de COVID-19 era um mistério que agora pouco importava: O carnaval finalmente havia voltado.
Aconteceu durante o Bloco das Ba-Bahianas sem Taboleiro, tradicionalíssimo em São Vicente. Heitor dançava, deixando a música libertá-lo de suas amarras: Vergonha, insegurança e timidez iam sendo pisadas pelos pés ágeis e velozes. No mar de foliões, um olhar chamou a atenção: Aquele rapaz negro retinto de olhos côr de âmbar, vestido com um short de linho e um colar de sementes vermelhas não parava de encará-lo. Um flerte logo correspondido pelo seu corpo.
– Quem é você?
– Sou um gênio. Posso realizar teu desejo mais profundo.
Meio bêbado, Heitor apenas sussurrou: Tudo o que eu quero é dançar para sempre. Até morrer. E beijou o belo desconhecido. Os lábios quentes tinham sabor de tâmaras frescas e mel.
Heitor repentinamente se viu num palco – A folia havia sumido. O samba, o trio elétrico e aquele homem lindo haviam desaparecido. Ele dançava abraçado a uma bailarina enquanto uma música tocava e a cortina abria e fechava, Não parava nunca. Ele não via a plateia, apenas um vidro e dois olhos que espiavam de tempos em tempos. Ele não conseguia parar de dançar nem soltar a bailarina que lhe parecia um manequim: Muda e gelada. Ouvia conversas de pessoas incomodadas com o som contínuo, e tudo ao redor parecia enorme. Ele dançou por dias, semanas e meses, sem jamais descansar. Começou a sentir dores, mas não podia parar de dançar. O cenário ao redor do palco mudava frequentemente: Primeiro parecia estar num enorme quarto de criança, depois numa sala, num velho galpão e por último, sentiu a terra tremer sob seus pés quando o palco inteiro caiu em um lugar ermo, que parecia um beco. O vidro rachou, mas ele não conseguia soltar a bailarina e fugir.
As pessoas que passavam pelo beco ouviam a música e se perguntavam de onde ela vinha, mas não sabiam da triste história de Heitor. Alguns ouviam gritos e gemidos vindos da caixa, mas achavam que eram apenas ilusões sonoras.
Anos se passaram e Heitor se transformou em uma criatura assustadora, sem vida e sem alma, mas ainda dançando dentro da caixa de música. Sua pele estava enrugada e seca, seus olhos estavam vidrados e sem expressão. As pessoas que o viam dançando ficavam paralisadas de medo e corriam dali o mais rápido possível.
Certa noite um homem que vivia em situação de rua assentou-se naquele beco. Entre seus delírios via um monstruoso homem dançando na caixinha de música que jazia em uma pilha de entulhos. Irritado pelo som contínuo, ele arremessou a caixinha com força para o meio da rua. Envelhecida pelo tempo, a madeira se partiu. João então retomou seu tamanho normal, o corpo minúsculo da bailarina em sua mão. Ele olhou os destroços ao seu lado e finalmente entendeu: Estivera preso numa caixinha de música. Dançou até o último de seus dias, como havia pedido. Tarde demais percebeu que desejos podem ser perigosos e gênios nem sempre são amáveis. Rodopiou uma última vez, involuntariamente, seu corpo exigia movimento contínuo. Carros passaram raspando por sua figura esquálida. Um policial tentou pará-lo, mas ele não conseguia deixar de dançar. Nas calçadas quem passava o via com pena ou desprezo: Mais um perdido na vida, delirante, sem eira nem beira. Aqueles olhares machucavam Heitor como facas. Sentia sede, fome e dores. Dançando chegou na avenida principal da cidade. Foi atingido por um caminhão que passava correndo pela contra mão. Morreu ao som distante de uma música que tocava em algum lugar.

